You are here
Home > Análises e Opiniões > Cenário Global > Por quê o Syriza será o grande derrotado na questão grega

Por quê o Syriza será o grande derrotado na questão grega

por: Paulo Fernandes Baia*

Aprendi algumas coisas com a experiência. Quando um país está incapacitado, por qualquer motivo, de pagar a sua dívida, duas situações podem se produzir: ou o país é pequeno e pouco relevante ou sua dívida possui um tamanho capaz de abalar os bancos credores e o sistema financeiro mundial. No primeiro caso, o país até pode ser socorrido por razões políticas, diplomáticas ou humanitárias, mas em geral, o problema é dele. No segundo caso, o problema é de todos. Como diz o ditado, se eu devo um milhão, eu tenho um problema, mas se eu devo um bilhão, o banco tem um problema.

Crises bancárias são assunto muito sério. Podem contaminar toda a economia e produzir recessões dolorosas. Nenhum governo quer passar por isso e em geral os bancos são socorridos, seja qual for o preço político. Para um exemplo recente, basta lembrar da crise americana em 2008. Portanto, quando um país devedor ameaça falir o sistema financeiro internacional, ele é socorrido, pelo menos no nível mínimo capaz de evitar a falência do sistema.

Podemos pensar: mas que mundo injusto o que estamos vivendo, então os gregos foram socorridos não por razões humanitárias, mas porque os alemães, franceses, italianos e outros não queriam ver os seus bancos quebrados e suas economias em recessão? Sim, é isso. Coloque-se na pele de um político alemão justificando a razão pela qual o dinheiro do pagador de impostos alemão deve ser dado à Grécia, onde a aposentadoria pode ocorrer aos 54 anos enquanto um alemão deve esperar os 65.

Quem empresta quer receber de volta. Essa é a razão pela qual se exigem programas de ajuste econômico como condição para o socorro financeiro. Os emprestadores querem ter a certeza de que, no longo prazo, o país vai gerar os recursos para pagar sua dívida. Afinal, não se pretende sustentar o país devedor para sempre e não se está falando em doações a fundo perdido. Ninguém quer sustentar um adolescente para sempre.

Outra coisa que a experiência nos ensina é que, rapidamente, o devedor aprende que não é ele que está sendo socorrido, mas o sistema bancário. Sendo assim, ele não precisa se comportar completamente bem. Se aceitar o plano de ajuste, será socorrido. Mas se apenas fingir aceitar, será socorrido também. Como não é fácil para nenhum político dizer ao povo que a hora da austeridade chegou, então o melhor estratégia para ganhar tempo é fingir aceitar a austeridade, aplicá-la no menor grau possível e seguir recebendo os recursos, também liberados no menor grau possível para evitar a quebradeira finaceira. Uma retórica bem esquerdista ou de confronto pode ser adotada pelo devedor, afinal os recursos serão recebidos de qualquer forma.

Essa situação não dura para sempre. Se os credores percebem que a intenção do devedor é ser eternamente financiado, começam a se preparar. O tempo permite que os bancos reduzam sua exposição ao risco grego. Acabam os novos empréstimos, alguns são pagos com os recursos do socorro, os bancos vendem seus ativos gregos, fazem seguros ou hedges para eles ou mesmo acumulam provisões. Alguns anos depois, a dívida ainda é problema, mas já dá para absorver o golpe.

Nesse exato momento, não há mais razão para financiar o devedor. Então, tudo passa a depender da atitude e das características dele: está disposto a aceitar austeridade para pagar no futuro? É um aliado geopolítico importante? Até onde sua crise poderá se espalhar por outros países? Os credores simplesmente podem concluir que sai mais barato absorver os problemas que vão decorrer da falência do que seguir financiando o país.

Cortado o financiamento, a Grécia fica sem dinheiro até para pagar os funcionário públicos e os aposentados. Isso vai acontecer no dia de hoje, 30 de junho. Então, são introduzidos os “controles de capital”. O nome é pomposo e muito esquerdista defende essa medida como a quintessência da política econômica popular. Na prática, “controle de capitais” significa que você não pode ir ao banco retirar o seu dinheiro, pois ele não está mais lá esperando por você. Um grego hoje está limitado a sacar E$ 60,00. Só que ninguém mais encontra caixas eletrônicos com dinheiro. Os bancos e todas as instituições financeiras estão fechadas.

Essa é a hora da verdade para o Syriza. As opções são:
1) decidir recuar e aceitar o acordo oferecido dizendo ao país que, lamentavelmente, a austeridade é mesmo necessária, o que é uma falência política para um partido que disse o contrário todo o tempo.
2) decidir recusar o acordo e dizer aos gregos que, como não há mais euros para pagar contas, o governo está relançando a dracma. Os depósitos bancários, os salários e as aposentadorias estão convertidas para dracmas. Obviamente a dracma não será aceita no resto da Europa e a nova moeda vai desvalorizar fortemente em relação ao euro, empobrecendo, de maneira súbita e profunda, os gregos, o que também será uma falência política para o governo de plantão.
3) não decidir.

O Syriza optou pela terceira alternativa. Como Pôncio Pilatos, perguntará democraticamente ao povo se prefere Jesus ou Barrabás. Assim, se perder o plebiscito, o Syriza pode deixar o governo dizendo que o paraíso já estava à vista, mas o povo não o quiz. Democrático que é, o Syriza segue em frente: a luta continua! Se vencer, o plebiscito, sempre poderá dizer que aplicou um política que era o desejo nacional, da maioria do povo.

Podem estar certos de uma coisa: se a Grécia sair do euro, o país entrará em crise econômica e política profunda. A Europa nem tanto. Erros de avaliação acontecem, mas se os europeus estão peitando a Grécia é porque avaliam, certo ou errado, que estão em condições de absorver o choque. Há quem tema que estejam errados. Alguns analistas propõem seguir socorrendo a Grécia para minimizar este risco. Para eles, ainda não é o momento de roer a corda.

Uma palavrinha sobre os Estados Unidos e a Inglaterra. É fácil para estes países pedir clemência para a Grécia. O dinheiro não sai do bolso deles, mas dos alemães, franceses, holandeses e outros sócios no euro. Se os americanos acham muito duro o que está sendo feito com a Grécia, nada os impede de emprestar dinheiro ao país, ou organizar um socorro internacional passando o chapéu para o Reino Unido, o Canadá, Japão, China, Austrália etc. Eles não farão isso, mas vão criticar a dureza da Alemanha. Outra coisa que aprendi com a experiência é que a caridade é sempre mais barata quando feito com o dinheiro alheio.

 

Paulo Fernandes Baia é graduado e mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas – SP, com estágio-sandwich na Lyndon Johnson School of Public Affairs, University of Texas at Austin. Foi Vice-Coordenador do Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia Política.

Deixe uma resposta

Top