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Por que o Brasil é tão caro?

O Brasil é um país caro. Exemplos de quão mais caro paga-se no Brasil por uma ampla família de produtos abundam — de vestuário, passando por mobília e alimentação, até itens eletro-eletrônicos. Um produto cujo preço local relativo costuma receber bastante atenção é o iphone. O gráfico abaixo mostra o preço de um modelo do smartphone para uma série de países. O Brasil aparece no topo — o aparelho aqui é vendido 50% mais caro do que o preço do lugar onde ele é mais barato.

 

iphone

 

É tudo caro!

Engana-se quem acredita que apenas itens eletro-eletrônicos ou tão somente um punhado de bens em geral são relativamente caros — um site fez fama recentemente mostrando, em tom de galhofa, como pelo preço pedido de alguns imóveis no Brasil era possível adquirir imóveis mais novos, modernos e espaçosos em cidades atraentes em países desenvolvidos. O fato é que um exame comparativo revela mesmo que muitas outras coisas no Brasil têm preços muito similares àqueles cobrados em outros países. Quando considera-se que a renda média do Brásil é menos da metade da renda percebida, em média, nesses países, logo fica claro como os preços são elevados, traduzindo-se em um poder de comrpa relativamente baixo

Algumas semanas atrás, a empresa responsável pelo famoso aplicativo para smartphone de preço e rating de vinhos (Vivino) anunciou que tinha criado uma espécie de índice de paridade de poder de compra batizado com o nome da famosa champanhe francesa Veuve Clicquot (ver aqui). O índice propõe apontar o custo da garrafa da bebida em vários países — refletindo, em alguma medida, os custos de produção (impostos inclusos) de cada lugar. O gráfico abaixo mostra por quanto a garrafa da bebida em questão é vendida em vários países. Advinha em que lugar ela é mais cara?

 

clicquotindex

Uma hora a ficha cai

Há quem ainda se surpreenda em como o Brasil é um país caro. Uns descobrem isso comprando iphone. Outros comprando pão (li um relato hoje de uma brasileira que vive em Paris atônita em como o preço do pão com uva numa padaria carioca era assustadoramente maior do que o mesmo tipo de pão nas melhores padarias parisienses).

Uns descobrem aos 20 anos. Outros aos 60. O espanto deve ser comparável àquele que temos quando descobrimos — sei lá — que o sol vai morrer (e com ele, a vida na terra como a conhecemos) ou que os números primos são os “átomos” de todos os números (uma propriedade tão útil quanto fantástica). Antes tarde do que nunca.

Por que tudo é tão caro?

Mas o que interessa mesmo é saber a razão disso. Afinal, quem é o culpado de tudo ser tão mais caro aqui? A resposta curta é a seguinte: as coisas são caras no Brasil, em boa parte, porque há aqui uma combinação perversa de governo grande e patrimonialista.

O governo é grande porque, em essência, a Constituição Federal coloca em seus ombros uma grossa cruz de “direitos sociais”. Governo não tem dinheiro — tudo que tem é obtido via empréstimo ou via subtração das rendas do trabalho dos indivíduos na forma de impostos. E para (mal) honrar suas obrigações (moradia, educação, previdência, saúde, segurança, lazer, etc, etc, etc), não vê outra saída senão taxar, direta ou indiretamente, seus cidadãos — estamos falando aí de quase 40% da nossa renda. Grande e economicamente poderoso, não é de se estranhar que atraia para suas entranhas grupos interessados estritamente na extração de parte do bolo de renda que arrecada ou no uso de suas prerrogativas regulatórias para benefício pessoal.

A natureza patrimonialista do governo — essa coisa imiscuída entre público e privado, herança de nossos colonizadores — permite que o mesmo seja capturado por bandidos disfarçados de empreendedores, passando a edificar em nome desses todo tipo de restrição/barreira à competição do lado da oferta para proteger os incumbentes às custas do pessoal do lado da demanda — eu, você e nossos vizinhos. A disputa Uber vs.Taxistas e os generosos estímulos ao setor automobilístico são vívidas ilustrações das restrições a competição criadas pelo governo. Sem sofrerem os desafios de níveis razoáveis de concorrência (interna ou externa), as empresas acabam gozando de maior poder de mercado (a habilidade de cobrar e vender por preços muito maiores do que os custo médio de produção).

O diabo disfarçado de messias

O mais interessante e tristemente irônico disso tudo — se você, claro, compra essa ideia, porque há quem ache que um governo grande e gastão é o que vai nos levar à riqueza material de que gozam os suíços… — é que no afã de criar um Estado que remediasse nossa pobreza e desigualdade, criamos uma máquina que cria e perpetua essas duas coisas. Triste. Mas como diz o provérbio, estamos apenas recebendo o que pedimos.

Sérgio Almeida
Sérgio Almeida
Possui doutorado em Economia pela Universidade de Nottingham na Inglaterra. Tem experiência na área de microeconomia, com ênfase no uso de métodos experimentais para investigar, em particular, a tomada de decisão sob condições de risco e incerteza em vários contextos. Foi membro do Center for Decision Research da Universidade de Nottingham (Inglaterra) e pós-doutorando na FEA/USP entre 2010-2012. Foi membro da equipe de pesquisa do J-PAL em 2013, um centro de pesquisa do M.I.T com uma rede global focada na avaliação experimental de impacto de políticas públicas voltadas para a redução da pobreza. Têm também interesse em questões metodológicas de experimentos (self-selection bias) e tópicos da área de economia comportamental (cooperation in public good games, self-control, dual process thinking, social influences on risk taking). É professor de Teoria Econômica do Departamento de Economia da FEA-USP.
http://lattes.cnpq.br/2400552693011875

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