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Brasil: Um País Com Fome De Produtividade

Nos últimos dias tenho dedicado meu tempo a entender melhor a atual situação socioeconomica Brasileira e seus impactos para a população nos próximos anos. Como é de praxe para qualquer analista sistêmico, nos quais me incluo, uma das primeiras coisas que fazemos é transitar por dados brutos e pelas discussões de especialistas de cada área da dinâmica social e econômica que tenham feito estudos bem embasados e pautados em princípios válidos. Com estes estudos em mãos, passamos à análise integrativa do quadro que, infelizmente, não me parece muito promissora.

É evidente que não será possível contemplar em um texto didático, dedicado à Internet, todos os pormenores que preocupam na atual situação do país. Seria necessário um livro com muitos volumes para mapear com profundidade este cenário e é isso que nosso grupo de pesquisa vem tentando fazer. Mas vou tentar expor aqui os pontos cruciais do problema que o país está por viver, pois além de serem preocupantes, atacam a causa raiz dos problemas brasileiros.

O primeiro ponto de análise que gostaria de explicitar já é velho conhecido dos que me acompanham: a questão da produtividade. Muitos se preocupam com os aspectos financeiros da economia, mas se esquecem que a produtividade é o principal pilar do enriquecimento de uma população. Por que digo isso? Pois não é o dinheiro em si que resolve os problemas sociais e individuais. Ele pode sim causar disfunções sérias, mas não é ele que sana as necessidades humanas, são os bens que são produzidos que o fazem. Esta compreensão é fundamental, pois é a produção, associada aos mecanismos de sua distribuição (dos quais o dinheiro é apenas um deles) que está no cerne de qualquer problema econômico.

Dito isso, podemos avançar nesta pequena análise que pretendo colocar. É fácil de perceber que há essencialmente duas formas de aumentar a produção de bens, por meio da inclusão de mais pessoas produzindo na economia ou por meio do aumento da produtividade individual. Há algum tempo já venho alertando que o modelo de crescimento econômico brasileiro da última década se pautou no primeiro (ver “A armadilha da nova matriz econômica”). Este modelo de inclusão é mais barato, mais rápido e de fato provoca um ganho de riqueza em nível social que pode ser compartilhado, já que você difunde a tarefa produtiva e reduz o ônus que os demais agentes teriam na manutenção do estado.

O problema desta abordagem é que ela tem um prazo de validade determinado. Em um dado momento, o número de pessoas disponíveis para ser incorporado no mercado de trabalho se esgota, levando a economia à estagnação, o que dependendo de como se faz a distribuição dos bens, pode tornar o cenário desastroso e até promover uma regressão dos avanços conquistado pela expansão de postos de trabalho. Mas o problema do Brasil vai além da saturação de seu modelo de crescimento.

Neste meio tempo, o país não se preocupou em utilizar os bons resultados da inclusão da mão de obra para incentivar o investimento no setor produtivo e ajustar os sérios problemas estruturais do país. O governo brasileiro também não reduziu a carga sobre os demais agentes produtivos. pelo contrário, aproveitou o crescimento que a economia vinha apresentando para inchar ainda mais o estado, por meio da manutenção de uma carga tributária elevada, tanto para os recém chegados ao mercado, quando para aqueles que já faziam parte do mesmo. Mais a frente ficará claro o motivo.

Pois bem, acontece que o limite de inclusão chegou e a primeira questão que surge é que nossa produtividade continua medíocre, nossa infraestrutura insuficiente, a poupança devastada por consumo e o risco que o país assumiu diante da realidade em pauta, o torna pouco atrativo para os investidores que ainda nos restam apliquem no Brasil, sem que tenham uma perspectiva de margens estratosféricas. O gráfico a seguir ilustra a discrepância da produtividade do brasileiro médio, em comparação com os demais países da OCDE. Chocante, não?

Produtividade do Trabalho
Fonte: PWT 8.1 – Dados de 2011.

É evidente que não é possível distribuir riqueza de maneira sustentável para uma população com este nível de produtividade, muito menos sustentando um estado que fica com cerca de 37,65% do pouco que é produzido, segundo os cálculos do economista José Roberto Afonso, o maior especialista brasileiro em carga tributária. Isto inviabiliza qualquer tentativa de poupança e investimento do brasileiro médio e, pior, determina que uma parcela esmagadora da população viva em condições ruins, visto que este pouco que é produzido ainda tem que ser dividido entre uma série de pessoas que não estão aptas ou dispostas a integrar o mercado de trabalho.

Quando tratamos de apropriação de recursos pelo estado, estamos discutindo um problema de distribuição de recursos. Hoje, o brasileiro tem investido 37,65% de sua produção por meio do governo. Um governo que fez poucos e péssimos investimentos voltados ao aumento da produtividade do país. Tem uma máquina onerosa e que trás poucos resultados, principalmente para a população produtiva. Um governo que pautou o crescimento no consumo fomentado com o que é tomado da sociedade, no lugar de construir uma estrutura para que a economia do país pudesse crescer de maneira sustentável.

Com esta retirada compulsória cada vez maior da sociedade, o país vem acumulando um desincentivo à poupança, um desincentivo ao investimento e até mesmo um desincentivo à produtividade individual, já que uma grande massa de brasileiros qualificados já não consegue mais ver sentido em continuar produzindo de maneira insana, para ficar com parcelas cada vez menos significativas desta produção. O resultado desta dinâmica que envolve desincentivo ao aumento da produtividade e esgotamento da capacidade de inclusão de pessoas no mercado de trabalho, leva à estagnação e até o declínio na dinâmica econômica do país.

Estes, por sua vez, acrescentam um componente de agravamento a esta crise que é a inviabilização da manutenção dos incentivos ao consumo que só são viáveis enquanto a sociedade tem “gordura” para queimar. No caso brasileiro, esta gordura eram as pessoas que poderiam ser inseridas no mercado de trabalho e uma reserva que foi formada durante a boa fase das commodities no mercado internacional.

Neste ponto é preciso relembrar uma regra básica de economia, a oferta tem que acompanhar a demanda para que os preços não disparem. Portanto, sem produtividade adicional e sem mais pessoas dispostas a produzir, a riqueza da população estará limitada e qualquer política de incentivo ao consumo irá culminar com uma de duas coisas: (1) inflação e/ou; (2) queima de reservas seguida de tomada de recursos no exterior. Esta última, também com prazo de validade e quando esgotadas as possibilidades, levaria invariavelmente à primeira.

Começa a ficar claro diante do que foi explicitado até aqui que se o país quiser de fato se desenvolver e reduzir a pobreza em seu território, o que precisamos hoje é de uma melhor aplicação dos recursos e um pesado incentivo à produtividade. Mas este desafio não é simples. No Brasil, quatro dos principais pilares para o aumento da produtividade encontram-se em péssimo estado e todos eles demandariam tempo e recursos para serem desenvolvidos o que, conforme apresentarei à frente, não será fácil de se obter.

A energia é o primeiro de nossos grandes gargalos. É sabido desde 2012 que as ingerências do Governo Federal no setor elétrico têm gerado pesadas disfunções em um sistema que já era historicamente frágil, por uma série de erros históricos na escolha da matriz energética.  Em janeiro deste ano, a iminência de colapso do setor elétrico ficou evidente quando a geração nacional não foi capaz de atender à demanda e energia teve que ser comprada de países vizinhos, para suprir o consumo nacional. Hoje, com a retração econômica, o sistema volta a ter uma folga, mas apesar de algumas poucas obras que estão em andamento, este ainda é um gargalo com enorme potencial impeditivo para o crescimento econômico do país, visto que é a energia que move os processos de automação e os itens de conforto para que os profissionais possam ser mais produtivos.

O segundo grande ponto de discussão é a logística. Mais complexo que o primeiro, este ponto reflete erros históricos na escolha de modais e uma profunda acomodação dos governos da última década que investiram recursos escassos em estruturas em outros países, em detrimento da estrutura nacional.

A logística brasileira é ineficiente… Cara, lenta e insegura… Muitos dos problemas são estruturais, como a pesada degradação de nossos portos e a elevada dependência que temos do transporte rodoviário, também degradado. Mas há vários problemas que são imposições estruturais criadas intencionalmente pelo próprio estado, como a complexidade dos processos aduaneiros, a lentidão e a corrupção nestes processos. Perde-se muito tempo no Brasil lidando com fatores não ligados à produção, para conseguir realizar a produção.

O terceiro ponto diz respeito à educação. O Brasil praticamente estagnou no IDH educação nos últimos 10 anos. Mas os dados negativos mais importantes que temos vêm dos resultados do teste PISA, realizado pela OCDE no ano de 2012. Este teste revelou um país onde os conhecimentos de matemática, ciências e leitura são pífios sendo que este último, onde éramos um pouco melhor, regrediu no último teste divulgado. Não é por menos que o último Indicador de Analfabetismo Funcional de 2012 revela que 38% dos estudantes de ensino superior são analfabetos funcionais, quadro que parece estar piorando, segundo pesquisa da Universidade Católica de Brasília que acaba de divulgar o número assustador de 50% de analfabetismo funcional entre os estudantes universitários.

O problema da educação é um dos principais fatores restritivos ao desenvolvimento de curto e médio prazo. Um gargalo que praticamente condena o país a pelo menos mais 15 anos de subdesenvolvimento se for tudo feito certo daqui para frente. Isto porque, a educação tem efeito de longo prazo. Os estudantes que começamos a formar hoje, estarão ingressando no mercado de trabalho daqui cerca de 10 a 15 anos. Sem educação de qualidade, aquela que lhe dá base de ciências, matemática e leitura, é muito difícil o obter produtividade, portanto este é um gargalo urgente e fundamental que deve ser priorizado acima de qualquer política, se pretendemos de fato desenvolver o país ao longo dos próximos 15 anos.

Neste sentido, o modelo Chinês tem se mostrado promissor. Com baixo nível de investimentos, os chineses têm conseguido ótimos resultados. Em Xangai, arrancaram o primeiro lugar no teste PISA em todas as áreas de atuação, mesmo tendo um PIB percapta menor do que o Brasileiro. A principal diferença do modelo deles para o nosso é que por lá a educação não é pautada por um modelo ideológico, como acontece no Brasil, mas sim por princípios científicos baseados no behaviorismo que a despeito das críticas feitas pelas mesmas linhas de pensamento que defendem o modelo brasileiro, se mostram os mais eficientes ao redor de todo o globo, para atingir bons resultados, até mesmo em termos de capacidade reflexiva, já que não se pautam apenas em comportamento adaptativo (como alguns insistem em pregar), mas também em aprendizagem.

Por fim, o último componente diz respeito ao incentivo à poupança e o investimento. Este ponto merece uma especial atenção, porque se refere diretamente a um assunto que está em pauta nas discussões ao redor do Brasil: o ajuste fiscal.

Como já foi falado aqui mesmo neste texto, o governo brasileiro veio inchando ao longo das últimas duas décadas, fazendo com que sua despesa aumentasse em um ritmo maior do que a geração de riqueza no país. Especialmente nos últimos 8 anos, este inchaço foi altamente danoso, já que se deu associado a gastos com baixíssimo retorno de médio e longo prazo, predominantemente com fins eleitoreiros. Em muitos casos ele também promoveu disfunções significativas na dinâmica econômica que comprometeram o potencial de investimento do país, principalmente a partir da instauração da nova matriz econômica.

No ano de 2014, com os limites da geração de riqueza atingidos e o estado carregado de obrigações legais e eleitoreiras, as contas não fecharam. Faltaram 32 bilhões de reais. Hoje o país tem que transformar este rombo, em meio a um declínio da economia, em um superavit de cerca de 170 bilhões de reais. Basicamente um rombo de 200 bilhões de reais que o governo brasileiro terá que achar uma forma de obter, em meio ao declínio da economia e da estagnação da produtividade, difícil de ser resolvida no médio e curto prazo.

Mas esta é só a ponta do iceberg. Recentemente, os economistas Mansueto Almeida Jr., Marcos de Barros Lisboa e Samuel Pessoa, escreveram um paper onde calculam os compromissos que ainda estão por vir para os próximos períodos. A cifra é assustadora, o nosso governo já tem contratado até 2030, um aumento de gastos com previdência, educação e saúde, de 300 bilhões de reais, elevando em quase 500 bilhões de reais a quantidade de recursos  que precisarão ser retirados da economia anualmente, para pagar as contas do governo.

A estratégia que nosso governo tem adotado para lidar com este aumento desenfreado dos gastos públicos é o aumento de impostos, visto que o país prefere manter sua tradição de concessão de benefícios de baixo impacto sobre a sociedade, em detrimento da construção de uma estratégia de investimento de longo prazo. Isto é demasiadamente preocupante pois, conforme nos lembram os autores da peça supracitada, “a expansão disseminada de benefícios públicos, sem a adequada gestão e controle de resultados, resulta, apenas, em subsídios e privilégios privados, sem a contrapartida do maior crescimento econômico e da geração de empregos.” Diferente de muito do que se prega ao redor do país, grande parte destes benefícios têm se dado para atender a grupos de camadas sociais aderentes aos objetivos de poder do governo e a grupos empresariais específicos que têm constituído verdadeiros monopólios, oligopólios e cartéis em território nacional.

O aumento da carga tributária para níveis de países desenvolvidos e com alta produtividade, em um contexto de baixíssima produtividade e baixo desenvolvimento, como o do Brasil, é altamente danoso no médio e longo prazo. Primeiro porque esta retirada compulsória de recursos da população repercute negativamente na capacidade de poupança e de investimento, um pilar importantíssimo para o aumento da produtividade e, por consequência da atividade econômica, em um país que já se encontra no limite de incorporação de pessoas no mercado de trabalho. Ela prejudica o crescimento, reduz o poder aquisitivo da população e sua qualidade de vida, ao passo que uma fatia maior da produção passa a ser gerida pelo estado.

Para agravar a situação, no Brasil uma grande parte destas despesas do governo não repercute em melhorias estruturais para os dois primeiros fatores citados, exatamente pelo foco dado aos programas voltados à manutenção do poder, e não garante melhoria para o terceiro fator. Os dois primeiros, porque o aumento de gastos previstos já está contratado para áreas que não o investimento em infraestrutura e este já encontra-se completamente comprometido frente ao quadro atual da economia. Pior, o aumento da carga tributária inibe os investimentos privados nestes setores, visto que as margens serão ainda mais estreitadas. O terceiro porque o problema da educação no Brasil se mostra mais de caráter doutrinário/estrutural do que orçamentário. Sem uma ruptura com os preceitos ideológicos que movem esta importante atividade do país, é improvável que investimentos de qualquer ordem repercutam expressivamente nesta área.

E qual seria a solução? Pois bem, resolver o problema brasileiro não é algo simples, envolve uma série de variáveis importantes. Mas o principal fator a ser considerado hoje é que a pobreza no país tem como principal fonte a produtividade pífia de sua população. Sem que cada brasileiro produza mais, não há possibilidade de tirarmos mais brasileiros de sua condição de pobreza.

O Brasil tem fome de produtividade e o governo, ao invés de alimenta-lo tem, pouco a pouco, estrangulado esta importante variável, levando o país a uma situação extremamente perigosa. Muito deste estrangulamento se dá por meio da tomada compulsória de recursos da sociedade, na forma de tributos. Parece ser uma opinião geral entre os analistas melhor fundamentados que medidas como estas dificultam a capacidade que o país tem de retomar sua capacidade de crescimento. O péssimo destino que o governo brasileiro vem dando a estes recursos, agrava ainda mais esta situação, visto que não repercute em ações estruturais que possam satisfazer as demandas do país.

Para matar verdadeiramente a fome do Brasil, será preciso ações que dificilmente agradariam a base eleitoral do atual governo, tampouco os monopólio, oligopólios e cartéis que vêm sobrevivendo das benesses e apadrinhamentos governamentais. Uma população pouco produtiva, requer um estado dimensionado para esta realidade. Um estado enxuto que permita à sociedade recuperar sua capacidade real de poupança, investimento e consumo. Para tal, seria necessário um rompimento efetivo com a lógica dos investimentos populistas e apadrinhamentos de curto prazo, para que os parcos recursos de nossa sociedade, possam ser usados para reforçar os pilares de nossa produtividade e garantir a criação de um futuro próspero e sustentável para o nosso país.

Leonardo Terra
Leonardo Terra
Mestre e Doutor em ciências pelo programa de Administração de Organizações da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (FEARP - USP). Possui MBA executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas e Graduação em Administração de Empresas pela FEARP - USP. Atua como professor, pesquisador e consultor na área de estratégia e desenvolvimento organizacional, explorando os princípios que regem os sistemas socioeconômicos por meio da matemática do caos e da epistemologia sistêmica e suas aplicações no processo estratégico e nas interações sistêmicas das organizações. Vencedor do West Churchman Memorial Prize em 2014.
http://lattes.cnpq.br/3022429953017645

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