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Escola Tabajara de Inferência Causal

Tem gente eufórica com os dados parciais que a CET liberou ontem — e que estão sendo amplamente repercutidos pelos sites de notícia. Os dados indicam que houve uma redução do número de acidentes nas avenidas marginais (Pinheiros e Tietê) em São Paulo. O dado de “lentidão no trânsito” (uma métrica obscura que nem os jornais, nem a CET, se atrevem a explicar), todavia, teve resultados misturados: piorou num período (manhã) e melhorou em outro (fim da tarde).

Post hoc ergo propter hoc
A euforia é um tanto descabida. Em essência, por duas razões.

Primeiro, porque não dá para inferir que essa redução nos acidentes (ou mesmo parte dela) foi causada pela redução nos limites de velocidade. Além da redução dos limites de velocidade, dezenas de variáveis que afetam o comportamento dos motoristas nessas avenidas (e até mesmo a metodologia de coleta dos dados) podem estar se movendo nesse período. Não dá para saber, portanto, quais variávieis estão governando a redução nos acidentes.

Segundo, porque mesmo que o efeito fosse inteiramente devido à redução de velocidade, isso já era mesmo esperado (é o que sugere a literatura da área). A questão central a ser debatida, e sobre a qual pouco sabemos, é se o benefício dessa medida compensa seus custos. A julgar pelo que aparece na mídia, a CET nada sabe sobre isso. Nem nós. A julgar pelo que aconteceu em outros lugares onde medidas desse tipo foram implementados, o tempo de deslocamento deve aumentar. Isso desenha a natureza conflituosa dessa intervenção — as vidas salvas e outros benefícios que a redução de velocidade traria serão obtidos ao custo de aumentar o tempo de deslocamento ao longo dessas avenidas.

No transparency, no incentive-compatibility
Um outro ponto pouco mencionado nessa discussão é o conflito de interesse entre o órgão que coleta e divulga esses dados (a CET) e o patrocinador das medidas (a Prefeitura de SP). Perdoe meu ceticismo, mas diante da falta de rigor e das inferências descabidas que a CET tentar propagar (voluntariamente ou não) quando divulga esse tipo de dado é natural que alguém fique receoso com o rigor na coleta e tratamento desses dados.

Em intervenções não-triviais no trânsito como essas patrocinadas adminsitração do prefeito Haddad, seria razoável que (1) a CET fosse mais transparente sobre como coleta e avalia seus dados e que, no espírito das auditorias, (2) desenhasse um processo de avaliação dessas políticas por organismos independentes. Infelizmente, nada disso vai acontecer no futuro próximo — afinal, isso aqui não é a Escócia. Vai Seu Mendonça, me chama de cético agora.

Sérgio Almeida
Sérgio Almeida
Possui doutorado em Economia pela Universidade de Nottingham na Inglaterra. Tem experiência na área de microeconomia, com ênfase no uso de métodos experimentais para investigar, em particular, a tomada de decisão sob condições de risco e incerteza em vários contextos. Foi membro do Center for Decision Research da Universidade de Nottingham (Inglaterra) e pós-doutorando na FEA/USP entre 2010-2012. Foi membro da equipe de pesquisa do J-PAL em 2013, um centro de pesquisa do M.I.T com uma rede global focada na avaliação experimental de impacto de políticas públicas voltadas para a redução da pobreza. Têm também interesse em questões metodológicas de experimentos (self-selection bias) e tópicos da área de economia comportamental (cooperation in public good games, self-control, dual process thinking, social influences on risk taking). É professor de Teoria Econômica do Departamento de Economia da FEA-USP.
http://lattes.cnpq.br/2400552693011875

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